Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009




Descobri recentemente que ainda há pessoas que abrem esse blog para ver se eu o atualizo. Na verdade, parei de escrever nesse espaço para me dedicar à construção da Agitprop, revista brasileira de design - http://www.agitprop.vitruvius.com.br/

Continuo escrevendo - e muito - por lá e convido a todos que acessam esse velho blog a visitar a revista, que reúne textos de formação, ensaios, notícias, agenda e resenhas de livros sobre design. A revista já fez um ano!

Além de mim, muita gente escreve na revista. Boa leitura!"

Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Livro e mostra João Baptista da Costa Aguiar

No próximo dia 28 de fevereiro vai ser aberta a exposição João Baptista da Costa Aguiar desenho gráfico 1980-2006 no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. O livro do mesmo nome também será lançado lá, na mesma hora.

Para quem gosta de design gráfico, é uma mostra e tanto. Não só para conhecer o trabalho do João Baptista (que, aliás, muitos têm em casa, nas estantes, já que ele é autor de grande número de capas de livros importantes), como também para ver uma concepção de mostra que não foi pensada como exposição de artes plásticas.

No Brasil ainda não desenvolvemos um pensamento de como expor design. Às vezes, o espaço expositivo se organiza à la pensamento moderno, com bases brancas ou supostamente neutras, grandes espaços entre elas; às vezes os objetos ficam quase grudados uns nos outros, dificultando a leitura. Eu disse "no Brasil", mas as referências bibliográficas internacionais sobre o assunto são raríssimas.

Nas mostras brasileiras, relega-se a segundo plano ou se esconde uma série de aspectos, vitais para a compreensão construtiva das peças. Raramente, por exemplo, se vêem esboços, modelos ou experimentos, algo que remeta ao processo, que no caso do design, é um entroncamento de razões formais e técnicas, no mínimo.

Enfim, toda a questão expográfica do design está para ser discutida e, nada melhor do que uma mostra montada com capricho (projeto do próprio João Baptista, saudavelmente muito exigente) para avançarmos nas concepções que regem exposições temporárias ou permanentes de design.

Recentemente, aliás, a belíssima mostra Concreta 56 a Raiz da Forma, no MAM/SP, foi um prato cheio sobre concepções expográficas, porque tinha uma grande sala dedicada a design – objetos urbanos, móveis, peças gráficas, marcas – e outras salas dedicadas a reconstruir a exposição de 1956.

A mostra de design estava primorosamente organizada (curadoria e projeto expositivo de André Stolarski), conseguindo leituras muitas vezes simultâneas de grandes objetos tridimensionais e pequenas marcas e seus estudos. As diferenças de partido entre as salas (artes plásticas e poesia numa e design na outra) ofereceram grande oportunidade para um estudo. Mea culpa...Pensei em fazê-lo tardiamente, a mostra fechou antes que eu tivesse tempo de visitá-la uma quarta vez (sim, fui vê-la três vezes, de tanto que gostei).

O João Baptista tem uma formação pautada no ofício gráfico e é contrário a toda aproximação (de procedimento) do design gráfico com a arte. Isso vale também para a maneira de expor, o que, portanto, merece ser observado na mostra.

Estou-me tornando uma marqueteira: o livro do João Baptista a ser lançado oficialmente no dia 28 (já está nas livrarias) tem texto meu e está (o livro) uma beleza.

Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

Daniel Lafer (1934-2007)

Faz um mês morreu Daniel Lafer. Confesso que, até agora, não me acostumei com a idéia e ainda espero receber seu telefonema me contando de uma nova luminária.

Arquiteto, Daniel projetou muitos edifícios, inclusive o Rambam, onde é meu escritório e onde ele próprio manteve o dele, durante anos. Nos últimos tempos, Daniel se dedicava, cada vez mais à produção de luminárias. Ele adorava pesquisar formas e materiais. Começou trabalhando com papel e com acetato branco, translúcido.

Depois descobriu um filme leitoso de poliéster revestido de lã de vidro utilizado como isolante térmico de motores elétricos. Com ele executou uma série de luminárias, entre as quais a Arraia, cuja figuratividade abafa os pontos de conexão das duas peças que a compõem. Também trabalhou com acrílico e policarbonato, fazendo, algumas vezes, um certo discurso do encaixe, ou melhor das junções das peças.

Acompanhei o processo de desenvolvimento da Arraia e, quando ele a batizou de Gaivota, protestei. Aquela era uma arraia voadora. Insisti na mudança, porque essas liberdades de nomenclatura são uma espécie de declaração do design como artifício, no dizer de Villém Flusser, um certo descolamento da idéia de recriação da natureza.

Daniel acatou a sugestão. Ele adorava discutir detalhes de seu trabalho e é pena que tenha parado de lecionar tão cedo. Formado em arquitetura na FAU/USP em 1958, foi assistente de Livio Levi no curso de desenho industrial do Mackenzie e professor na Faap de 1969 a 1990.

Como o mestre, enveredou pelo projeto de luminárias e de jóias. E foi vendo seu trabalho e a maneira ágil como ele pensava umas e outras, que percebi que, tanto ele como Levi, projetavam os aparelhos de iluminação como ornamentos do espaço.

Foi síndico durante muitos anos no edifício de nossos escritórios. Todos os pequenos problemas eram tratados com soluções de design, como o corrimão central na escada de acesso. Certa vez, um carro adentrou a garagem sem esperar que o portão se abrisse. Depois do conserto, Daniel desenhou uma linha vermelha irregular sobre a superfície preta do portão, que parece uma notação musical. Com ela pretendeu dar mais um sinal de alerta aos motoristas distraídos. Também na identificação do número do edifício ele inovou, ao aplicar os números diretamente numa grande luminária – não há quem não o veja, dia e noite.

Detalhista e exigente, Daniel demonstrou certo desprezo pela doença, que não o impediu de projetar e montar novas luminárias e de pensar uma exposição retrospectiva de todo seu trabalho. Não houve tempo para que a realizasse.
Fonte das imagens:
[1] Luminária Satélite. <
http://www.rioform.com/Pages/lafer.html > Acesso em 09 de fev 2007
[2] Luminária Arraia. 11º ao 15º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira: 1997/2001. Org. Marlene Milan Acayaba; colaboradora Renata Simões. São Paulo: Museu da Casa Brasileira, 2001. p. 211.
[3] Lumináriao Luz do Aalto. < http://www.rioform.com/Pages/lafer.html > Acesso em 09 de fev 2007

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

Revista Florense

Um conselho: se você é designer ou está, de algum modo, comprometido com a discussão sobre design, leia a revista Florense. O conselho pode parecer meio velhaco, pois eu colaboro regularmente na revista.

Só que, além de mim, estão lá regularmente Moacyr Scliar, Ana Maria Bahiana, Sérgio Augusto, Maria Lúcia Rangel, Ruy Castro, Alice Granato, Luiz Antonio Girón e Miriam Scavone. A Miriam é responsável por uma exclusividade no Brasil todo: uma seção de livros da área de design! Pois, confira, nenhum outro veículo tem essa seção fixa e comentada, que não se atém aos lançamentos, mas fala de livros importantes da área, mesmo quando publicados há algum tempo.

Todos nós recebemos sugestões do editor Renato Henrichs, jornalista político, responsável pela editora da Universidade de Caxias do Sul, que faz o que todo editor de uma revista desse tipo deveria fazer: incentiva os jornalistas, sugere e propõe cruzamentos disciplinares, que têm-se revelado deliciosos. Girón, pesquisador e crítico de música, por exemplo, escreveu sobre Paulo Coelho!
A revista é trimestral e não versa apenas sobre design, mas traça uma grande espiral em torno do tema e acaba enveredando em outras áreas. É uma revista de design e cultura que tem matérias escritas com leveza, sem abrir mão de conteúdos importantes.

Foi lendo a revista que aprendi com Sérgio Augusto que resgate, essa irritante palavra que vem sendo usada no sentido de recuperação ou restauro (e que eu também utilizava), é coisa de bombeiro. E que o vocábulo atitude, tão disseminado pelo pessoal da moda, virou uma referência pobre para ...qualquer coisa.

A revista está nas bancas, mas é encontrada também nas lojas Florense. E eu juro que, apesar de parecer, este texto não tem nada de merchandising.

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Barreiras

Alguém sabe quem é que projetou as barreiras que invadem os canteiros centrais e as calçadas movimentadas de São Paulo? Uma alegoria aos tempos em que presídios estão na ordem do dia.

Calçadas, Rio e São Paulo

Tenho a sorte de ser pedestre em tempo quase integral, caminhando de casa para o escritório todos os dias. Vou ao Rio com regularidade e lá também é a pé que chego à maioria dos lugares.

Portanto, comparo regularmente a situação das calçadas nas duas capitais. O Rio, cidade mais pobre, mais espremida, tem calçadas muito melhores. Para começar, são padronizadas pelo poder público. Em muitos bairros são largas, uniformes, convidativas ao andar.

Em São Paulo, o bairro que atravesso diariamente é Higienópolis, um dos mais favorecidos da cidade. Vejo diariamente muitas pessoas idosas driblando buracos; mães tendo de empurrar carrinhos de bebê pelas ruas e transeuntes tropeçando em bueiros mala fechados, tampas desniveladas. Sem falar nos problemas dos que se locomovem com cadeiras de rodas - falta de rebaixamento em longas extensões - ou dos deficientes visuais.

O ecletismo na escolha de padrões e materiais faz a cidade mais feia do que já é. Cada prédio, ao renovar sua frente, em vez de acompanhar o desenho do vizinho, resolve afrontá-lo, superá-lo. Não passa pela cabeça dos síndicos que a mais feia das calçadas ficaria melhor, se contínua, do que uma toda fragmentada.

Não parece uma providência simples que a prefeitura estabeleça padrões e faça que cada edifício os cumpra?
Que ninguém reclame da obesidade...No Rio, em que pesem assaltos, tiroteios e outras mazelas presentes em São Paulo, as pessoas conseguem sair de casa e caminhar.

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

Calendários

Janeiro é mês das agendas e calendários. Um deles eu espero ansiosa, é como receber presente de aniversário e Natal, tudo junto. É a magistral peça da Scheufelen, que tenho a honra de ganhar há alguns anos.

A Scheufelen é uma grande empresa alemã/internacional de papéis de alta qualidade. Comprou há alguns anos a Job francesa e está no Brasil representada pela Vivox. Seus diretores seguem a tradição das casas impressoras e se esmeram no projeto e na confecção de calendários anuais. Também promovem uma premiação internacional de calendários, em que a empresa paulistana Burti amealhou muitos troféus.

Poucas pessoas sabem, mas uma dos impressos de Gutenberg foi um calendário. Não se tratava, como nos de hoje, de uma mera representação espacial do tempo, mas sim uma peça de cunho moral e religioso, que exortava os cristãos a lutarem contra os turcos que, segundo os textos em versos, invadiriam a Europa.

O calendário se tornou tradicional peça de promoção das gráficas. Nele estão contidas as possibilidades técnicas da empresa. Mas, quem é do mundo do design sabe que não existe projeto feito só sob base técnica – esta é apenas uma das aberrações que alguns professores ainda ensinam nas escolas. Todo objeto é simbólico e o calendário, especialmente, demonstra o universo cultural da empresa que o produz.

A peça da Scheufelen desse ano abre com uma lâmina de fundo branco e ranhuras prata – na verdade, um fragmento de desenho de Piranesi - sobre as quais está a frase "O céu não é o limite". As páginas internas dos meses são reproduções ampliadas em grande formato de pequenos fragmentos de telas de pintores de vários períodos em que o céu está representado.

Cada tela é capturada com minúcia, deixando revelar seu envelhecimento; a força da mão que manejou os pincéis, num encadeamento que vai da placidez de Canaletto à turbulência de Turner, por exemplo.

Só esta seqüência de imagens tão magistralmente reproduzidas já faria o calendário ser precioso. Mas a Scheufelen não quer ser reconhecida como reprodutora de arte. Ela se apresenta como uma casa devotada às artes gráficas. Cada lâmina do calendário é ladeada, ora à esquerda, ora à direita por uma fileira de pequenos retângulos das cores que compõem a página. A cada retângulo corresponde um dia do mês. É possível retirá-los, marcando o dia e vasando a lâmina para a peça que vem a seguir, no mês posterior, uma espécie de lentíssimo trailer que vai preparando o espectador para a próxima imagem.


Todos esses pequenos pedaços de papel podem ser juntados e colados numa composição própria do usuário na última lâmina do calendário, uma folha traçada para receber os retângulos de cores, numa sugestão de interatividade que, a meu ver, é demasiada, uma vez que se rende à idéia contemporânea de que não há diferença entre produtor e consumidor. Embora discorde dessa perspectiva, presente em tantas exposições de arte contemporânea, não deixo de admirar a proposta inteligente da Scheufelen. De fato, acredito que muitos tentarão compor seu próprio céu e sucumbirão diante das belas imagens anteriores.

Uma pena. A Burti não faz mais seus magníficos calendários e não tenho visto nas gráficas brasileiras um esforço para atingir esta difícil simplicidade esmerada e engenhosa do calendário Scheufelen.

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Segredos da Fiesp

A mostra de design da Fiesp, muito bem vinda, apresenta ao público o acervo da instituição, adquirido por José Mindlin nos anos em que esteve à frente da política de design da poderosa Federação. E também os produtos brasileiros premiados no industrie Form de Hanôver.

Ao ver esse acervo, guardado na Fisp, é de pensar por que ele não está permanentemente em exibição. Isso auxiliaria muito os professores de história do design das escolas de São Paulo. Pensando bem, em vez de se chamar Segredos do Design, a mostra poderia ser intitulada Segredos da Fiesp...Va lá alguém de menos de 30 anos imaginar que os soturnos senhores da Federação das Indústrias guardam todas aquelas preciosidades?

Bem montada, com legendas precisas, painéis explicativos bem redigidos, a exposição apresenta a visão dominante do ‘good design’, consolidada a partir do MoMA. Estão lá Breuer, Rietveld, Mies van der Rohe, Le Corbusier e Charlotte Perriand, Charles e Ray Eames, Marcelo Nizzoli e tantos outros nomes "clássicos" da historiografia internacional do design.

Ao lado desta exposição, são exibidos ao público os produtos brasileiros premiados nos últimos anos na industrie Form (iF), de Hanôver. Novamente os painéis e as legendas estão muito bem apresentados, as escalas respeitadas, a circulação e iluminação excelentes.

O conjunto do acervo da Fiesp e o do iF, no entanto, fazem pensar na nossa inalterada condição periférica. A mostra internacional é um exemplo do que ‘deveríamos ser’. A mostra nacional revela como os europeus nos reconheceram aqui e ali nos últimos anos.

A questão não é interna à mostra, mas exibe nossas fraturas, nosso pensamento turvo e despolitizado. Muitos dos painéis falam do design como bom negócio, numa espécie de propaganda da atividade...para os empresários. Mas...são os industriais que sediam a exposição e a abrem ao público!

Existirão bons produtos brasileiros que não freqüentam o iF, ou seja, não foram legitimados pelo tal do olhar estrangeiro? E as novas leituras do design, amparadas na história cultural, terão lugar em outros acervos?